Posted on 3rd December 20094 Responses
O Corvo – Edgar Alan Poe

Tradução de Milton Amado

 

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém? Murmurar fiquei um? Que bate à porta, devagar;
E sim, é só isso nada mais. ”

ocorvo_desenhoAh! Claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
E o fogo Agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
Algum remédio à amarga infinda saudade, atroz de Lenora
? Essa, mais bela do que uma aurora, a quem nos céus chamam Lenora
E nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
Arrepiando-me e evocando Ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pavida arritmia, o coração batia veloz
E eis um sossega-eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais. ”

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
Mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
Que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
Assim de leve, em hora morta “. Escancarei então a porta:
? Escuridão, e nada mais.

Sondei uma noite tranquila e erma, olhei-a fundo, perquiri UM-la,
Sonhando sonhos que ninguém, ousou sonhar iguais ninguém.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror Imoto e quedo,
Só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: “Lenora!”
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: “Lenora!”
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
Mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
“É na janela”? penso então. ? “Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
O vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
E o vento só e nada mais. ”

Abro a janela e eis que em tumulto, um esvoaçar, penetra um vulto:
? É um Corvo hierático e soberbo, Egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
Adeja e pousa sobre o busto? uma escultura de Minerva,
Bem sobre a porta, e se conserva ali, no busto de Minerva,
Empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura soleníssima uma figura,
Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular”? Então lhe digo?
“Não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro Torvo!”
Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o teu nome Torvo no inferno! ”
E o Corvo disse: “Nunca mais”.

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
Pois nunca soube de vivente algum, outrora presente ou não,
Que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
Uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
E que se chame “Nunca mais”.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
Com a alma inteira a se Espelhar Naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
Enquanto a mágoa envenena-me: “Amigos? Sempre vão-se embora.
Se como uma esperança, ao vir a aurora, ele também há-de ir embora. ”
E disse o Corvo: “Nunca mais”.

Vara nexo com o silêncio, tal, essa resposta que perplexo,
Julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio:? O ritornelo
De “Nunca, nunca, nunca mais”.

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso triste rosto um,
Girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
E, sem mergulhado coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
Visava um algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
Com que intenções, horrendo, Torvo, esse ominoso e antigo Corvo
Grasnava sempre: “Nunca mais”.

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
Eu me abismava, absorto e mudo, em DEDUÇÕES conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre uma almofada
Dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
Dessa poltrona em que ela, ausente, à luz cai suavemente,
Já ah não repousa,! Nunca mais?

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
Ali descessem um celestiais turibulários esparzir.
“Mísero Exclamo!,. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,
Esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora,
Sorve-o Nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora! ”
E o Corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta! Brado?.? O Ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
Que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
De algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, esta Precita um
Mansão de horror, o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade! ”
E o Corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” exclamo. “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
Essa, mais bela do que uma aurora, a quem nos céus chamam Lenora! ”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

“Seja isso a nossa despedida!? Ergo-me e grito incendida, Alma.?
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que mentira Ateste tal!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta! ”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
Sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
E uma lâmpada da Luz disforme, atira ao chão uma sua sombra.
Nela, que Ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

Comments
comment by online
Posted on 2010/03/13 at 06:06

bom comeco

comment by Poltronas
Posted on 2010/06/25 at 17:36

Muito Interessante este artigo.

comment by Eduardo
Posted on 2010/07/05 at 14:34

Parabéns pelo post, é muito útil mesmo!

comment by self improvement articles
Posted on 2010/08/19 at 02:41

I wonder what responses would be like to the questions:

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